Nos trabalhos mais recentes, a paleta se tornou ao mesmo tempo mais densa e mais estranha. Massas de cor se interpõem entre o fundo e as figuras, criando uma falsa noção construtiva: algo que parece estrutura, mas não obedece a nenhuma estrutura conhecida, que lembra ordem sem se submeter a ela. Há nessas pinturas uma qualidade de coisa prestes a se resolver em algo que nunca chega inteiramente. É uma ambição que tem mais a ver com música do que com pintura: nas composições do Sonic Youth, referência declarada do artista, camadas de guitarra se sobrepõem em dissonâncias que nunca chegam a se resolver por completo, criando uma tensão em que o ouvinte habita sem conseguir nomear. As pinturas de Whitaker funcionam de modo análogo: há uma estrutura, há uma lógica interna, mas o ponto de chegada se recusa sempre a se fechar.
O espectador que entrar em contato com essas telas não vai “entender” no sentido convencional do termo. Vai, se tiver sorte e tempo, reconhecer algo. E perder esse reconhecimento. E talvez reencontrá-lo. A pintura de Whitaker dirige-se à memória – não à memória de algo específico, mas àquela capacidade que todos temos de reconhecer formas antes de nomeá-las, de sentir familiaridade sem conseguir justificá-la. “A afterimage é algo que não me pertence mais”, declara o artista, e nessa afirmação está a generosidade do trabalho: a de quem conduziu a obra até o limite de suas possibilidades e então a entrega ao olhar do outro para que ela seja, ali, terminada.