Macrocosmos, microcosmos ou, a cosmogonia dos incêndios.

    Macrocosmos, microcosmos ou, a cosmogonia dos incêndios.

    Viewing Room
    Curadoria: Paulo Kassab Jr.
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    Cinzas no paraíso

    , 2021

    Incêndios

    Inúmeros mitos sobre a origem do fogo, dos povos indígenas brasileiros aos gregos, fazem alusão à sua potência transformadora e ameaça latente. Enquanto na Grécia é Prometeu quem rouba o fogo do Olimpo e o oferece aos homens, na mitologia dos Suruí Paiterei, é o pássaro preto, Orobab, que engana a onça Mekô, dona do fogo, e leva suas chamas para a humanidade — em ambos os casos trazendo sabedoria, mas também infortúnios. Ainda que seja fundamental entender tais alegorias na perspectiva dos valores da sociedade na qual surgem, através da semelhança entre elas podemos seguir vestígios que nos levam a compreender a brasa como um marco, símbolo da distinção entre natureza e cultura.

    Se há uma noção de revolução sociocultural a partir do domínio do fogo, é também dele que surgem os primeiros desenhos, o embrião da nossa capacidade inventiva de pensar a natureza externa, imaginá-la e representá-la com bastões de madeira queimada, carvão, nas paredes das cavernas.

    Contemplar o conjunto da obra de Kilian Glasner é espreitar a história do desenho e entender sua ligação estreita com o fogo em sua potência subversiva, mas também criadora.

    Esta relação surge no trabalho pela primeira vez em 2010, em “O brilhante futuro da cana-de-açúcar”, na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa ). Na instalação o artista preenche de desenhos os muros do estacionamento da instituição com uma enorme plantação de cana de açúcar. Ao saber que Calouste Gulbenkian era também conhecido como “Senhor do petróleo”, Glasner — convencido das vantagens do uso de energias renováveis, faz com que os visitantes testemunhem os faróis de seus carros, refletidos no desenho, a incendiar o canavial.

    Quatro anos mais tarde a pesquisa se acentua quando Kilian, instigado pelas distintas formas da chama, desenvolve a série “Anatomia do Fogo”, se apropria dessa entidade gasosa emissora de radiação e, com execução impecável em carvão sobre papel, exalta o fogo na fatalidade. Um barco petroleiro em alto-mar, as janelas de uma casa, uma bandeira e um hotel, do qual ironicamente só restaram as letras “HOT” do letreiro, flamejam, e o encanto sublime do fogo toma conta da cena. Engana-se quem aqui enxerga unicamente o drama, o trabalho insinua uma espécie de remissão do material: o carvão que surge da queima, recria no papel o aquilo que se perdeu no incêndio.

    Curioso notar que idéia dos vestígios e a referência à origem do desenho, já surgira anteriormente no trabalho do artista. Em 2009, ao ser selecionado para o “Rumos Artes Visuais” (Itaú Cultural,SP), Glasner pediu como condição para a finalização de seu trabalho, que lhe fosse cedido um imóvel fora do espaço expositivo institucional. O lugar escolhido foi uma mansão em ruínas na Rua Thomás Carvalhal, onde ele realiza a instalação “Rua do Futuro”. Na obra, raízes e caules pretos desenhados nas paredes da casa, se unem às copas das árvores reais que afloram pelos buracos no teto, janelas e paredes destruídas. Esvaziada de móveis, objetos e retratos, a casa transfigura-se em tela, e os muros/pedras, marcados com carvão, contam aquilo que se imagina do lado de fora, ou o que se deteriora por dentro. Se a residência vazia torna-se quadro em branco, os destroços queimados surgem como ferramenta. Mas, para qual futuro indica esta rua que abriga apenas os destroços de uma casa?

    A Dança dos Átomos

    , 2021

    Ritual

    , 2021

    Os Sertões

    , 2021

    Dois mil e vinte um — ao adentrar a exposição no CCBB, nos deparamos com um vídeo no qual o artista caminha sobre os escombros do que restou de seu ateliê em Itamaracá – PE, vítima de um incêndio que não só consumiu sua casa, mas também toda obra que faria parte desta mostra. Em uma atmosfera silenciosa, que nos faz lembrar os filmes de Tarkovsky, Kilian se inclina sobre a ruína premeditada em trabalhos antigos. Estilhaço, objetos deslocados de seu tempo e fragmentos de memória apontam aquilo que não foi, mas poderia ter sido. Tudo é vestígio e de tudo ficou pouco “não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, salta esta perna de rã, este vidro de relógio partido em mil esperanças, este pescoço de cisne, este segredo infantil…”1 Resta o rosto de sua mãe em bronze, um soldadinho de chumbo de sua infância, pedras e carvão que, se antes fazia-se instrumento para inventar e imaginar o fogo, agora é sobra. O filme segue e o artista indica o argumento que nos guiará por toda exposição. Marteladas destroem o que antes eram vigas e o carvão explode no papel desenhando o cosmos. O universo é sobra, explosão, big bang. Repousa aqui a ambiguidade dos incêndios, apesar de devastador, revela a força de gerar outro porvir, das células ao espaço. Neste ciclo originaram-se cada um das obras desta exposição.

    Com um imaginário muitas vezes construído em cima de fotografias, o artista cobre o papel com pó, pastel, carvão, cola e outros materiais que geram um “fundo” que alude literalmente ao macrocosmo, concebido em micro partículas e células. Dentro dessas superfícies, Kilian incorpora referências simbólicas a objetos, figuras ou lugares e, através deles, codifica sua própria história.

    Macrocosmos, microcosmos ou, a cosmogonia dos Incêndios, marca a volta de Kilian Glasner às séries anteriores em um ato final que inverte o sentido das criações precedentes. Agora a ruína não mais é representação, ela salta do papel para presença, testemunha o que foi consumido e aponta, ao mesmo tempo, para aquilo que pode emergir, o sonho.

    Paulo Kassab Jr.

    1. Resíduo. Carlos Drummond de Andrade In A Rosa do Povo, José Olympio, 1945

    Kilian Glasner
    (Recife, 1977)

    Nascido em 1977 na cidade de Recife, Brasil onde vive e trabalha.

    Começou os estudos nos anos oitenta, (ainda criança). E ganhou seu primeiro prêmio aos 21 anos no Salão de Artes Visuais de Pernambuco. Com 22 anos se mudou para Paris onde se graduou na ecole des Beaux Arts. Durante esse período foi aluno do artista Giuseppe Penone e realizou exposições em Paris, Londres, Itália, Bélgica e Holanda.

    Voltando ao Brasil em 2007 entrou para a Galeria Laura Marsiaj-RJ, Moura Marsiaj-SP e Mariana Moura. Ganhou o prêmio Rumos Visuais do Instituto Itau Cultural com a instalação “Rua do Futuro”. Em 2010, foi convidado pela fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa para realizar uma enorme instalação chamada “o Brilhante futuro da cana -de açúcar “. Expôs na Galeria Marco Antonio Vilaça ao ser contemplado com o prêmio Santander. Realizou exposições individuais nas capitais Brasileiras com patrocínio institucional do Instituto Caixa Cultural, Itaú cultural, Santander Cultural, Cento cultural Banco do Brasil. Nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasilia, Belo Horizonte, salvador, Rio Branco,
    Pernambuco, Curitiba , João Pessoa e Recife.

    Em 2012 voltou para Europa e se instalou na cidade de Berlim onde morou por dois anos. Durante esse período realizou exposições em Bruxelas na Galeria Rainhart, nas embaixadas brasileiras de Londres e Atenas.

    Atualmente é representado pela galeria Lume em São Paulo, Galeria Paulo Darze, salvador e Garrido Galeria em Recife.

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    , 2021

    Vídeo por Ashlley Melo

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    , 2021

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    , 2021

    Espiral

    , 2021

    Cinzas no paraíso

    , 2021
    Kilian Glasner
    Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
    pigmento puro sobre papel,
    150 x 150 cm,

      A Dança dos Átomos

      , 2021
      Kilian Glasner
      Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
      pigmento puro sobre papel,
      107 x 107 cm,

        Ritual

        , 2021
        Kilian Glasner
        Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
        pigmento puro sobre papel,
        152 x 152 cm,

          Os Sertões

          , 2021
          Kilian Glasner
          Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
          pigmento puro sobre papel,
          150 x 150 cm,

            Contente-se com as estrelas

            , 2021
            Kilian Glasner
            Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
            carvão sobre papel,
            150 x 150 cm,

              Nebulosas 1

              , 2021
              Kilian Glasner
              Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
              pigmento puro sobre papel,
              74 x 74 cm,

                Nebulosas 2

                , 2021
                Kilian Glasner
                Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
                pigmento puro sobre papel,
                74 x 74 cm,

                  Nebulosas 3

                  , 2021
                  Kilian Glasner
                  Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
                  pigmento puro sobre papel,
                  74 x 74 cm,

                    Meteora

                    , 2021
                    Kilian Glasner
                    Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
                    pigmento puro sobre papel,
                    119 x 119 cm,

                      Espiral

                      , 2021
                      Kilian Glasner
                      Macrocosmos, microcosmos ou a cosmogonia dos incêndios,
                      pigmento puro sobre papel,
                      119 x 119 cm,