Figuras do Silêncio

    Figuras do Silêncio

    Viewing Room
    Ana Maria Maia
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    Os cacos da society

    Quebrar o silêncio
    e depois recolher
    os pedaços
    testar-lhes o corte
    o brilho
    cego

    Ana Martins Marques
    (O livro das semelhanças, 2015, p.51)

    Entre 1979 e 1989, Ana Vitória Mussi foi fotógrafa da coluna social de jornais do Rio de Janeiro. Cobriu inúmeros eventos por onde passaram chefes de estado, celebridades e personalidades da elite carioca. A “society” era a forma usada para designar as pessoas colunáveis, ou a alta sociedade, lançando mão de estrangeirismos, entre outros artifícios convenientes ao imperialismo cultural, para informar distinção

    Matriz 01

    , 1997

    Impressão

    , 1997

    Na chamada “década perdida”, enquanto o Brasil vivia a transição da ditadura para a democracia, a economia atingia uma grave crise, marcada pela hiperinflação da moeda. Durante o período, esse tipo de fotografia comercial tornou-se uma alternativa de subsistência para a artista. A rotina de pautas externas, redações e laboratórios de revelação analógica, no entanto, gerou arquivos que seguiram alimentando toda sua carreira subsequente e cujos temas pode-se dizer que já atravessavam a sua pesquisa desde o princípio. Reunindo cerca de 20 obras feitas entre 1970 e 2011, essa exposição individual confirma a persistência da artista em discutir relações entre imagens técnicas, narrativas de poder e estratégias críticas.

    Ana Vitória Mussi (Laguna, SC, 1943) foi aluna de Ivan Serpa nos cursos de desenho e pintura do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro na virada para a década de 1970. A instituição naquela altura era o ponto de encontro de uma vanguarda experimental na cidade. Ali a artista presenciou o surgimento da videoarte brasileira e começou a criar em multimeios, entre os quais a fotografia e as intervenções em conteúdos e circuitos midiáticos.

    Matriz 03

    , 1997

    Impressão 1 | preto

    , 1970

    Impressão 2 | preto

    , 1997

    Já em 1970, Ana Vitória apropriou-se de páginas de jornais correntes para desenvolver obras tais quais Morto anônimo e MobilizaçãoAssim como Antonio Manuel e Yolanda Freyre, também adeptos dessa prática em datas próximas, a artista costumava desenhar ou pintar usando a mídia impressa enquanto suporte. O jogo que surge da relação entre a mancha gráfica original e as formas que a sobrepõem, hora opacas e hora translúcidas, abarca a metáfora de uma presença da arte no cotidiano, com ambição para transformar a realidade sociopolítica. Rasurar e supostamente “editar” o noticiário era a maneira de levantar suspeitas sobre as narrativas apaziguadas que costumavam ser disseminadas em tempos de dura repressão e controle.

    Encobrimento

    , 1978

    Box na TV

    , 1975

    Antes mesmo de atuar dentro de um veículo de comunicação, Ana Vitória tornava seus projetos oportunidades de reivindicar uma agência – na qualidade de artista e antes de mais nada cidadã – sobre o imaginário da mídia e da indústria cultural. Em Box na TV (1975) ela fotografou nove instantes de uma luta transmitida pela televisão. Organizado de forma não linear, o políptico vai na contramão de uma síntese visual e não dá certeza sobre vencedores e vencidos. O duelo extrapola a temática retratada para problematizar a própria dinâmica de produção e circulação massivas de imagens. Ao promover uma quebra da hegemonia do olhar, o trabalho demonstra que toda construção de narrativas públicas é atravessada por irredutíveis percursos, ambivalências e desacordos.

    Quando saiu da imprensa, Ana Vitória tinha acumulados centenas de rolos de filmes das fotografias que tirou. Havia slides de positivos, negativos convencionais e os lhe chamavam especial atenção, da marca Kodalite, com o característico acetado transparente. Esse vasto material passou a ser usado nas pesquisas da artista. Revirá-los e empregá-los nos trabalhos é até hoje sua forma de escrutinar o seu passado e principalmente as premissas de manutenção de normas e papeis vigentes pelas imagens. Ao fazê-lo, ela filiava-se a uma vertente da fotografia contemporânea que – desde a década de 1980, a exemplo de nomes como Rosângela Rennó e Christian Boltanski – abraçava as coleções e os hibridismos com outras linguagens como meios expressivos.

    Em séries como Encobrimento (1978) e Resíduos (1992), Ana Vitória sujeitou os fotogramas de filmes antigos a camadas de serigrafia, pintura e gravura. Seu intuito era instituir as mudanças discursivas agora nas matrizes, bem como literalmente empastelar os signos de poder e propaganda nelas até então presentes. A saber, Recortes do ano (1994) é toda construída com retratos de pessoas famosas, cujas identidades são borradas pela artista, devolvendo-as ao anonimato.

    Impressão 3 escala

    , 1992

    Série Andamento, “Pausa”

    , 2011

    Contudo, tanto quanto as veladuras, a observação atenta e analítica também está no leque de operações da artista. Obras como Mergulho na imagem (2009) e Pausa, da série Andamento (2011) assumem a configuração de objeto para tirar as imagens do plano, dar-lhes literalmente espessura e, assim, tentar devassar seus mecanismos de crença. Como os instrumentos óticos que remontam aos primórdios da fotografia no século XIX, são estruturas baseadas em gestos simples, mas dotadas de uma didática bastante eficaz.

    Vidrado

    , 1990

    Mergulho Na Imagem #1

    , 2009

    Nadadora

    , 1972

    Enquanto a vida é invadida por imagens digitais e criações de inteligência artificial, acelerando ainda mais o ritmo de circulação e inebriando em igual medida o nosso discernimento, Ana Vitória Mussi nos convida a revisar uma conta do século XX que permanece aberta. Essa cronista da “imagosfera”, a esfera pública mediada por imagens, segue debruçada sobre cacos que ainda cintilam, ainda que testemunhem falências e anacronismos. Com ela, aprendemos que talvez não sejam as imagens que estão em crise e sim a sociedade das imagens com suas práticas de anestesia do olhar – para não dizer dos demais sentidos.

    Ana Maria Maia

    Matriz 01

    , 1997

    Impressão

    , 1997

    Matriz 03

    , 1997

    Impressão 1 | preto

    , 1970

    Impressão 2 | preto

    , 1997

    Encobrimento

    , 1978

    Box na TV

    , 1975

    Impressão 3 escala

    , 1992

      Série Andamento, “Pausa”

      , 2011

      Vidrado

      , 1990

      Mergulho Na Imagem #1

      , 2009

      Nadadora

      , 1972