A tragédia surge quando duas verdades entram em colisão. Não há inocentes. Ela afirma a vida mesmo diante do tormento e nos entrega a uma das muitas realidades possíveis da nossa existência. Das tantas narrativas contadas ao longo da história, a mitologia grega reúne enredos que ressaltam a importância desse embate, um momento de passagem, que ocorre antes do renascer. Um espaço intermediário, no qual seus personagens, imbuídos de uma certeza muitas vezes dolorosa do destino, cobrem parte de seus corpos, em sua grande maioria os rostos, em um olhar para o próprio mundo interior. A face, para a mitologia, é a presença pública, é por ela que se reconhece a identidade e o pertencimento. Quando o artista multidisciplinar Nino Cais os cobre com distintos materiais, de livros a embalagens, retirando, assim, seu protagonismo, ele também questiona o papel identitário do homem e os coloca na penumbra dessa passagem entre mundos. Ele suspende o reconhecimento, interrompe o olhar do outro e inicia a dissolução de seus vínculos sociais individuais.

O véu, seja qual formato ele possa ter, coloca tais personagens em processos de um momento que a antropologia moderna, definida principalmente por Arnold van Gennep (1873-1957), chama de liminar. Um período fértil, perigoso e muitas vezes instável de reintegração, quando adentramos um tempo em que nossas identidades ficam suspensas. Desta forma, o véu funciona como uma membrana simbiótica que cria a opacidade necessária para atravessar e transformar o corpo. No mundo visível, Cais amplia nosso pensamento. Para além dos rostos apurados minuciosamente em diferentes formatos, ele também subtrai em outros trabalhos partes distintas do corpo e de imponentes estruturas arquitetônicas da história da humanidade, jogando com a volumetria dessas formas e trazendo à tona a discussão sobre a imagem em foco e a imagem na lâmina presentes no papel não serem apenas bidimensionais – e sim, tridimensionais já que contêm em si o próprio objeto. Assim, Cais produz uma espécie de depilação da imagem, retirando sua impressão. Ele replica nesse material um método tradicional da escultura, que é o ato de desbastar. Dessa forma, redesenha o pensamento escultórico em outras direções. 

Os corpos e construções gregas ressurgem nas obras ainda danificados pelo tempo ou pelos próprios povos que ocupavam tais territórios, certos de que, ao rompê-las, fariam com que esses personagens mitológicos tivessem suas almas libertadas. As intervenções pontuais de Cais criam outras paisagens possíveis, assim como novas formas de comunicação com nossa cultura ancestral. É como se, por meio das interferências feitas pelo artista em um constante diálogo com as mesmas, tais cenas e corpos voltassem a adquirir seu espírito, ampliando o significado já presente na sua história. 

Transfigurar e construir novas alegorias a partir de livros, imagens e cenas dadas é algo recorrente em seu trabalho, que se utiliza de diferentes mídias, suportes e linguagens atreladas à literatura, ao teatro e às artes visuais. Essa reconfiguração aparece em um potente desdobramento reunido na sala externa da galeria Lume. O espaço, em frente a um pequeno jardim, transforma-se em uma espécie de viveiro de animais fantásticos em plena transmutação. Constantin Brancusi (1876-1957), um dos grandes mestres a trabalhar a ideia de forma subjetiva e complexa, tem, em sua série Maiastra, um de seus pontos de contato com as atuais criações de Cais. O nome vem de uma ave mítica do folclore romeno, a Pasărea Măiastră, um pássaro mágico associado à luz, ascensão e metamorfose. No ideal de Brancusi, no entanto, a maiastra não é um pássaro em si, mas a ideia de voo. De um ser encantado que caminha entre animal e espírito, figura e abstração, matéria e luminescência. Nino Cais faz o sobrevoo desta ideia atrelando-a ao tangram. Seguindo a geometria proposta, o artista cria novas formas por meio da fragmentação e recomposição das sete peças que constituem o jogo de origem chinesa. Os pássaros que surgem evidenciam que nenhuma fração perde sua identidade, mas seu sentido muda conforme a posição. No chão do espaço, é possível ver o início dessa metamorfose. A partir de capas de livros antigos, em sua maioria de mitologias egípcias e gregas, Cais dá vida a outros seres. Um diálogo claro com o movimento neoconcreto que discute o objeto como experiência, tirando-o da espacialidade estática e levando à reflexão sobre sua relação com os organismos. 

Ao tensionar presença e apagamento, volume e superfície, Nino Cais nos coloca diante de uma condição essencialmente liminar: nem imagem plena, nem ruína definitiva; nem corpo íntegro, nem fragmento inerte. Suas obras habitam o intervalo — esse território onde a identidade se suspende para poder se reconfigurar. Entre o gesto de velar e o de revelar, entre o desbaste e a recomposição, o artista nos convida a atravessar a possibilidade de reinventar o olhar — como se, ao tocar essas presenças em trânsito, fôssemos também convocados a renascer em uma nova ideia de voo.

Ana Carolina Ralston
Curadora