Há territórios que se reconhecem pelo mapa. Outros, pela memória. Há ainda aqueles que permanecem no corpo, como uma paisagem que se carrega depois de partir. Na obra de Kilian Glasner, o território não aparece apenas como aquilo que é representado, mas como aquilo que constitui a própria matéria da pintura. Nascido em Recife e ligado também às paisagens do Vale do Catimbau, o artista reencontra no chão do sertão uma matéria elementar: o saibro (laterita alaranjada). Recolhido da terra, transformado em pigmento e aplicado sobre a superfície, o chão deixa de ser tema para tornar-se imagem. Essa operação desloca a pintura da representação para uma experiência de territorialidade. O que está diante dos olhos não é simplesmente um lugar retratado, mas uma espécie de território condensado: memória, matéria, experiência e conflito. Há, nas obras, algo de profundamente cartográfico. Cercas, linhas, campos, construções e delimitações organizam o espaço como se toda paisagem carregasse consigo a história das fronteiras que a constituíram. Mas essas fronteiras nunca são neutras. Elas dizem respeito à posse, ao pertencimento, à exclusão e à disputa.

A quadra de tênis que surge em linhas nas obras introduz uma imagem particularmente precisa dessa condição. O jogo é marcado por uma linha que separa os lados e determina a disputa: dois territórios diante um do outro, sob regras que estabelecem que, ao final, haverá um vencedor. A quadra torna-se, assim, uma alegoria de outras disputas muito maiores — a demarcação da terra, o reconhecimento, o direito de permanecer, a definição de quem pode ocupar determinado espaço e quem será dele retirado. Mas Kilian nos lembra que nenhuma geografia é inteiramente estável. As linhas que a delimitam são também linhas de tensão. Ailton Krenak, em sua crítica ao que chama de “humanidade” como categoria excludente, insiste que a terra não é recurso a ser tomado, mas corpo do qual somos parte — de modo que toda cerca, todo título, toda linha de demarcação constitui não apenas uma partilha do espaço, mas uma fratura no modo de existir em relação. O território é uma relação viva, constituída pela memória, pelos seres, pelos rios, pelos ancestrais e pelos modos de habitar.

É nesse ponto que o saibro ganha uma dimensão que ultrapassa a escolha cromática. O artista não pinta a terra; ele pinta com a terra. O material carrega consigo uma história anterior à imagem. Há algo de quase arqueológico nesse gesto: retirar do solo aquilo que será devolvido à superfície sob a forma de pintura.

A noção de “território usado”, desenvolvida pelo geógrafo Milton Santos, ajuda igualmente a pensar essas obras. Para ele, o território não é um espaço inerte ou simplesmente delimitado, mas um espaço dinamizado pela vida, pelas relações, pelas contradições e pelas resistências que nele acontecem. Um espaço que se produz por marcas, ritmos, repetições e gestos de apropriação. Talvez seja por isso que as figuras de Glasner pareçam estar sempre em uma situação de deslocamento. Corpos que atravessam, deslizam, flutuam ou permanecem diante de uma fronteira. São corpos que não parecem simplesmente habitar um espaço, mas negociar com ele. A pintura torna-se, então, uma espécie de campo de forças. O vermelho do pigmento, a aspereza do saibro, as linhas que cortam a paisagem e as cercas que estabelecem seus limites fazem da superfície um lugar onde alguma coisa está permanentemente em disputa.

No fundo, talvez o artista esteja quesitonando algo elementar: quando dizemos “meu território”, de que estamos falando?

De uma terra?
De uma memória?
De um lugar de origem?
De um corpo?
De uma fronteira?
Ou do direito de continuar pertencendo a algum lugar?