O corpo operário é o primeiro campo de batalha da modernidade. Entre o ruído das máquinas e o brilho frio do metal, a vida se dobra à lógica da produção. Ali, o tempo não pertence a quem vive, mas a quem mede o viver em lucro e desgaste. A violência do trabalho não é apenas física – é ontológica, dissolve o ser no fazer. Corrói o gesto e o silêncio, reduz o corpo à ferramenta e o desejo à força motriz de uma engrenagem sem repouso.
O capitalismo fez da matéria uma extensão da carne e da carne, mercadoria. Tudo que toca — o alimento, a terra, o afeto — se converte em valor de troca. A promessa de progresso encobre uma devastação contínua: a do humano transformado em coisa, e da coisa que, por isso, já carrega um resquício de humanidade. O operário, figura inaugural dessa transmutação, é também quem mais se aproxima da verdade do mundo — porque carrega em si as marcas de sua própria exploração. Mas há algo que insiste, mesmo sob o peso da repetição. Uma força discreta, talvez vegetal, que resiste à captura total. Pelas frestas, nas ferrugens, nos fragmentos que o sistema rejeita, pulsa ainda a possibilidade de reencantamento: o gesto de quem recolhe o que restou e o faz florescer. É nesse ponto — onde o ferro encontra a seiva — que o trabalho volta a ser criação, e o corpo, novamente, humano.
As obras de Marcos Roberto emergem desse chão, forjado em metal, marcado por cercas e cinzas. O artista, ex-metalúrgico, recolhe restos da indústria e do conflito agrário para fazê-los brotar. Portões arrancados, facões gastos, fios que guardam o eco das mãos. “O que se rompe aqui não é o trabalho, é o ciclo da violência. A planta incorpora o aço, ressignifica o gesto, pede uma nova relação entre força e cuidado.” diz Marcos.
Seu trabalho expõe a persistência da herança colonial: o cativeiro transfigurado em servidão moderna, a terra transformada em negócio, o corpo em instrumento. A abolição não dissolveu a submissão, apenas a redistribuiu sob novas formas — monoculturas, expulsões, desigualdades que mantêm o Brasil arcaico dentro do Brasil moderno. “Sem Terra/Contra-ataque” é uma insurgência contra a modernização sem ruptura, contra o progresso que isola a terra e cala o semear. Aqui o ferro que sangra também germina, a planta irrompe do aço e encarna a teimosia da vida, o facão se quebra em raízes e folhas.
Já na série “Mercadoria”, Marcos revela de modo sutil, como antigas estruturas de dominação ainda atravessam corpos e territórios, transformando-os em bens, produtos. Tarifas, vistos, moedas: tudo que mede, controla e fragmenta o mundo circula entre as mãos, mas de forma instável. “Cuidado, frágil”, lê se em caixas que à primeira vista parecem feitas em papelão já amassado e supostamente precário mas, ao tocá-lo, sentimos o peso do metal, lembrando que até a fragilidade carrega o registro de forças duras e persistentes. O que se produz no Brasil, vende-se Brazil. A exploração muda de forma, mas a lógica persiste: tudo gira em torno da mercadoria, do custo mínimo, mão de obra barata, e do preço máximo — a velha economia travestida em novidade.
Por fim, em “Linhas do Horizonte, páginas de um tempo em branco”, o artista se aproxima do campo da imaginação e das possibilidades. Em óleo e esmalte industrial sobre metal, vemos uma página de caderno em branco, colada com fita sobre uma paisagem. A folha a frente do horizonte é intervalo e promessa: uma saída pela educação, abre-se agora a possibilidade do novo, de um olhar que reaprende a nomear o mundo.
Quase autobiográfica, a exposição “Pra não dizer que não falei das flores” é uma pedagogia silenciosa, porém contundente. Nela Marcos Roberto faz da sucata um arquivo. Em cada corte e solda, evoca tanto a lucidez sociológica quanto a ternura insurgente — um modo de pensar a partir da matéria, como quem percebe no ofício a maneira de reescrever seu tempo.
Paulo Kassab Jr.