… semearás nu, nu ararás.
E nu colherás…
Hesíodo
El otro camino, que sin embargo es el mismo.
Julio Cortázar

Os trabalhos

Quando entramos na galeria recebem-nos, dependurados das paredes e do teto, belos panos coloridos. Soltos no espaço, agitam-se no ar, como bandeiras. O linho é um tecido orgânico, tradicionalmente usado como suporte para pinturas a óleo, a artista o utiliza aqui como base de sua pintura, aproveitando suas cores industriais vibrantes, sobre as quais desenha e pinta, letra após letra, versos de autores que incluem, a maior parte das vezes, a palavra sonho. (Sonho encarnado).

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Na Penitenciária feminina de Almoloya de Juárez, no Estado do México, um grupo de 14 mulheres privadas da liberdade bordaram alguns versos do poeta cubano José Martí:

Yo sueño  con los ojos
abiertos y de dia
y noche siempre sueño.

e acrescentaram seus sonhos. Um sol dourado e letras douradas sobre o azul celeste; uma lua de prata e letras prateadas sobre o linho azul marinho. Logo, em outra caligrafia recamaram seus humildes sonhos, entre o amor e a liberdade:

que vuelo…
com el mar…
com una vida más libre…
com algo mejor…
abrazarte otra vez…
voltar a verte…
contigo…

Sonhos modestos, para mulheres sós. As detentas, relata Marilá, não recebem visitas, como se o fato de estarem presas fosse fonte de opróbio para seus familiares e amigos. Na oficina de costura, elas se reuniram para bordar seus sonhos. (Sueño despierto).

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A artista fotografa as mãos de trabalhadores, executando suas tarefas. São funcionários de uma gráfica, empregados de um hotel, entregadores, trabalhadores da construção civil e da Bienal de São Paulo. Solicita deles que respondam o que eles desejam, assegurando-lhes o anonimato. Na exposição são exibidos seis polípticos com fotografias e as respostas em suas caligrafias originais. As mãos, laboriosas, trabalham. Os desejos gritam. Assustam de tão simples, tão básicos. Ninguém deseja viagens ao espaço, nem sequer a Europa ou a Miami.

Eu desejo ser motorista profissional de caminhão. Escreve um, objetivo. E o imaginamos cumprindo seu desejo, mudando de trabalho e percorrendo as estradas do Brasil, num caminhão vermelho.

Que as férias coletivas voltem no mês de junho. São vários os funcionários do hotel que desejam essas férias, infelizmente canceladas. Mas eles desejam também 1 banheiro próximo ao hotel (Como é possível isso num hotel cheio de banheiros?) e uma área de descanso (Como é possível...?)

O fim do inverno. Querem os que sentem falta da luz do sol.

Tempo, tempo. Desejam os que não tem tempo. (Ainda temos desejo).

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Em Guadalajara, México, é comum ver, nas ruas, ambulantes vendendo picolés com uma ponta cônica, em forma de foguetes. A artista trouxe as formas do México, produziu os picolés em diferentes sabores e os distribui na galeria e na rua. Abacaxi, manga, morango e uva. Cada picolé é entregue com um guardanapo colorido com informações sobre o aquecimento global e suas consequências. (Foguetex do futuro)

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Durante a exposição será lançada uma publicação na qual a artista relata uma viagem que faz até Francisco Morato, Região Metropolitana de São Paulo, onde mora Neide, que foi sua diarista. Motivada pelo convite de uma empresa de transporte aéreo, Marilá faz o trajeto, primeiro, pelo transporte público, como Neide costumava fazer: metrô, trem, ônibus. Depois de duas horas e meia chega ao destino. No dia seguinte, do helicóptero, avista a casa da Neide; apenas vinte minutos depois de partir da Av. Faria Lima.

A publicação tem, além do relato, citações de Anne Sibran, o poema Mapa de Ana Martins Marques, a fotografia Pega de banco de Metrô ou escultura para o herói desconhecido de Carlos Zílio, 1977, e um mapa do trajeto pelo transporte metropolitano. (Seu tempo nas suas mãos).

… e os dias.

Os dias de Marilá Dardot sucedem-se em travessias mais ou menos acidentais entre países e continentes. Brasil, sim, e México; as vezes Portugal. A Calzada de Tlalpan pode entroncar com a Avenida Paulista e dar na Avenida da Torre de Belém. Sempre em português, mas, às vezes, em espanhol, Marilá acalenta as palavras. As retira dos seus lugares mais seguros: romances, poemas; as arranca, de vez em quando,, mas, depois, lhes da outro lugar, onde repousam felizes. Um jardim, um parque, um quintal; neste caso: telas coloridas, vibrantes onde se apoiam em delicados contrastes. Os poetas falam em sonhos e a artista os encarna na trama arcaica do linho, a fibra natural com que se faziam lenços, lençóis, camisolas, anáguas, mortalhas e telas. Telas onde pintavam-se retratos, paisagens, batalhas. Mas agora servem para pintar versos.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas

Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem

Esse é o único trabalho, nesta exposição, que foi realizado exclusivamente pela artista, são pinturas, melhor, não-pinturas que colocam as palavras a voar, traços de cores sobre as telas coloridas.

Duas obras desta exposição – Sueño despierto e Ainda temos desejosão trabalhos que contam com a colaboração de participantes determinados: mulheres presas numa instituição ou trabalhadores. Os participantes, chamemo-los assim, respondem questões sobre seus desejos ou sobre seus sonhos. Os desejos dos trabalhadores aparecem entre as fotografias que exibem mãos anônimas trabalhando. Os sonhos das mulheres, bordados em fios de prata sobre retângulos de linho, completam o poema de José Martí. Resulta evidente que os participantes pertencem a grupos pré-determinados, são detentas e trabalhadores, que poderiam ou não, tornar-se espectadores. Marilá exibe a fala destas mulheres, destes trabalhadores, e nos faz refletir sobre sua situação. Desejar o fim do inverno, por mais simples que o desejo pareça, nos lembra, que muitos devem trabalhar em ambientes não aquecidos, que não tem agasalhos e, às vezes, nem comida suficiente. Sonhar com o mar pode ser o sonho da liberdade para quem está privado dela.

Nestas obras a identidade do sujeito contratado é um componente central, o que as aproxima ao que Claire Bishop chama de performance delegada, que aconteceria quando o artista contrata indivíduos não artistas ou especialistas de outras áreas para fazer o trabalho. Não são porém, performances no sentido literal da palavra: a performance tem lugar longe dos olhos do espectador, quando as mulheres presas se reúnem para bordar na sala de costura ou quando os trabalhadores preenchem seus questionários.

Devemos entender que o que se nos apresenta, por mais acabado que pareça, é o resíduo de uma performance que não vemos, que acontece no momento em que a artista se encontra com a comunidade, expõe seu projeto e estabelece os modos de realização.

Marilá nos aproxima de contextos sociais diferentes e nos permite aceder às falas daqueles que nunca ouvimos falar. Os funcionários de um hotel, os marceneiros e montadores da Bienal de São Paulo, as mulheres presas no México. Nas propostas o político se insinua a través dos pequenos relatos, o das quatorze mulheres, o dos trabalhadores em exposições de arte periódicas, ou o dos extenuados atendentes do hotel.    

Foguetex do futuro, por fim, é uma ação na qual Dardot oferece, aos passeantes, picolés com formato de foguete, acompanhados de um guardanapo onde se leem informações sobre o catastrófico porvir do nosso planeta.

Suco de frutas, gelo, calor, economia informal, prognósticos científicos e SpaceX, a obra, esclarece a artista, propõe uma experiência sensorial que convida à reflexão sobre o ambiente, o tempo e a responsabilidade global, alertando para uma compreensão mais profunda da necessidade coletiva de agir sobre desafios urgentes. Penso nas propostas de Felix Gonzalez Torres, quando se referindo às Candy Works, diz:  Eu estou lhe dando essa coisa açucarada, você a põe na sua boca e é como se chupasse o corpo de alguém. Longe da intenção sensual do cubano, Marilá considera um ponto de engajamento ambiental, ao entregar junto de cada picolé – a coisa açucarada –, um guardanapo de papel com um texto sobre o aquecimento global, o prolongamento das temporadas de incêndios florestais, a insegurança alimentar decorrente disso ou, ainda, sobre o aumento do nível do mar.

Ao receber o picolé, cada participante recebe um guardanapo da mesma cor que o sorvete, laranja, amarelo, roxo, vermelho, cores saturadas que são um distintivo de Dardot, que já organizou bibliotecas por cores, e colocou flores amarelas sob os ipês roxos.

Seu tempo nas suas mãos é um relato irônico, quase surreal, onde é possível perceber, a contra-pelo, as desigualdades do país. O tumulto, a demora de mais de duas horas no transporte urbano, contrastam com os fugazes vinte minutos de helicóptero, com direito a água, lanches, chocolate e nécessaire perfumado. O texto, impregnado de afetos cálidos e econômico sarcasmo, tem um acento cortazariano. A lembrança de Los autonautas de la cosmopista ressoa entre as frases de Marilá – a paisagem, primeiro, vista da janela do trem e, depois, contemplada do ar –, a viagem dilatada espelha-se na jornada contraída. Seu tempo nas suas mãos, desde que você tenha dinheiro suficiente e espaço para aterrizar.

Filha da arte conceptual e do conceitualismo latino-americano, Marilá, montou bibliotecas, amealhou uma coleção de obras refeitas: de Robert Smithson a Hélio Oiticica – a coleção Duda Miranda. Leu, com um lápis na mão, de Cortázar a Perec, brincou e ainda brinca com as palavras, com as próprias e com as dos outros, palavras que ela joga para o alto, recolhe, faz rodar, veste de cores intensas, as ilumina de ouro e prata, as imprime sobre papel, as pinta. Sempre as palavras. Essas perras negras como diria Julio…

Maria Angélica Melendi