O céu é um abismo de ponta-cabeça

Há uma pergunta que Eduardo Coimbra não responde — e é precisamente por não responder que ela sustenta esta exposição: onde principia o céu? Não como fato astronômico, mas como problema de construção. Porque o céu, aqui, não é dado: é fabricado, camada sobre camada, tinta sobre ferro, até que a pergunta sobre sua origem deixe de fazer sentido. Não precisamos do início nem do fim, apesar de apenas compreendermos o mundo assim por experiência própria, finita. Precisamos apenas estar, por um instante, dentro da dúvida.

Coimbra vem de uma formação que pensa em estruturas — vigas, plantas, cargas, prumo. Mas o que ele faz com essa gramática arquitetônica é desviá-la de sua própria promessa de estabilidade. Os Abismos urbanos usam a métrica exata dos azulejos, o rigor de um desenho técnico, para depois traí-lo: as perspectivas escorregam, o piso que deveria nos segurar sugere quedas, o “fora do prumo” se instala onde esperávamos retidão. É uma arquitetura que aprendeu a duvidar de si mesma. E o abismo, aqui, não é o vazio, é justamente o excesso de construção, a vertigem de um espaço que insiste em ser medido mesmo quando já não pode mais ser habitado com segurança. Reconhecemos essas quedas porque já as vivemos em algum elevador, em alguma escada, em algum piso urbano que nos pareceu, por um segundo, líquido. O abismo mais perturbador não é o desconhecido: é o familiar que se recusa a se comportar.

O Plano celeste opera o movimento inverso. Se os abismos urbanos entopem o espaço de construção até ele desabar em ilusão, as nuvens de Coimbra fazem o caminho contrário: partem da imagem mais leve, mais gratuita, mais “livre de impostos” — para usar a expressão que Stieglitz aplicava às suas próprias nuvens fotografadas — e a instalam sobre ferro, sobre parede, sobre a arquitetura pesada da sala. O céu que todos conhecemos de memória, que atravessamos com o olhar sem nunca tocar, aqui ganha peso, superfície, corpo. E com o corpo, uma ambiguidade insolúvel: as paredes são o céu onde as nuvens vagam, ou as nuvens são fendas por onde, finalmente, avistamos o céu verdadeiro, o de fora, o que continua girando sem nós? Edu não decide. Ele constrói os dois abismos ao mesmo tempo e nos deixa cair.

Gaston Bachelard dizia que o ar é o elemento da liberdade, mas também o elemento sem apoio — sonhamos com ele justamente porque nele não há onde pousar o pé. A pintura usa esse mesmo elemento sem forma para abrir buracos na perspectiva, pequenos colapsos organizados dentro do sistema que deveria conter tudo. Coimbra parece operar exatamente nessa fenda: entre o sistema (a métrica, o prumo, a grade, a arquitetura) e aquilo que o sistema não consegue conter (a nuvem, a queda, a vertigem). Não há síntese entre os dois, e é bom que não haja. O que a obra propõe não é uma reconciliação entre céu e chão, mas a experiência precisa e repetida de estar suspenso entre ambos.

Talvez por isso esta exposição não se deixe percorrer como uma sequência de obras, mas como um território a ser atravessado — no sentido em que Coimbra sempre tratou seus trabalhos: não como objetos a contemplar de um ponto fixo, mas como situações em que o corpo do espectador entra e, ao entrar, já modifica a experiência do que vê. Por isso também algumas frases deste texto foram soltas das páginas e devolvidas ao espaço: para que voltem a ser o que eram antes de virar texto — pensamento em trânsito, sem página que as prenda, sem ordem obrigatória de leitura. Uma exposição, no fundo, também é isso: um protocolo inacabado, uma arquitetura de perguntas que se recusa a fechar.

Entre o abismo que se abre no chão e o abismo que se abre no teto resta o visitante, único elemento vertical em um espaço que trabalha, sistematicamente, para tirar-lhe do eixo.

 

Paulo Kassab Junior