A poética do artista, que vem sendo afinada há mais de vinte anos, é conhecida pelo repertório de símbolos, mitos e arquétipos que conjugam natureza e cultura, tencionando categorias a priori distintas, em busca de um pensamento mágico. Reunindo imagens de várias manifestações culturais, Vilela elabora um léxico próprio, tendo a natureza como constante protagonista. Onças, matas fechadas, densas florestas tropicais, folhagens, rios e barcos nos convocam a uma experiência imersiva. Diante de sua pintura, por vezes questionamos a noção de tempo histórico, como se a narrativa se situasse num suposto “estado primordial” do humano.

É preciso, ainda, situar a obra do artista dentro de questões caras ao século XXI, como o colapso do modelo civilizatório ocidental junto ao intenso movimento de revalorização de saberes e tecnologias de comunidades tradicionais. A partir da experiência de catástrofes ininterruptas e múltiplas falências do projeto moderno, questionamos o privilégio da ciência em detrimento de outros modelos de produção de sentido. Creio que o trabalho de Vilela está orientado com esta perspectiva, uma vez que traz a tona um conjunto de referências dissidentes, como a religiosidade afro-brasileira e os mitos amazônicos. Pollyana Quintella

“Eu tenho sonhos e pesadelos fantásticos. Gostaria de fotografar esses eventos que saltam do inconsciente na hora do sono. Na impossibilidade de fazê-lo eu os transformo em pinturas. Portanto, o problema da minha pintura é psicológico”; diz o artista. Vilela trabalha com a desconstrução e realocação dos mitos ancestrais, das liturgias e do imaginário das religiões, o pensamento primitivo e a obsessão por tornar “visível” as imagens do inconsciente. Desde 2010 desenvolve uma pesquisa na tríplice fronteira entre a fotografia, o desenho e a pintura. Atualmente busca uma relação entre literatura e artes plásticas. “Minhas pinturas contam histórias de uma mitologia pessoal. Não tenho interesse em fazer arte contemporânea, contingente de seu tempo. Minha motivação é fazer uma obra atemporal”; nos fala. Seu processo de trabalho está muito próximo do cinema. Prepara uma locação com modelo, atriz, figurino, luz específica, e fotografa a cena. Num segundo momento, de volta ao ateliê em Recife, escolhe a melhor imagem para pintar. O óleo vai onde a lente não pode alcançar. Suas obras em pastel seco também estão numa fronteira entre a pintura e o desenho, mancha feita em técnica seca sobre papel. Imagem fotográfica revelada com o uso da borracha e do carvão. Em 2014 os cineastas Beto Brant e Cláudio Assis produziram um documentário sobre a obra do artista. Em 2018 o videomaker Markus Avaloni produziu um outro documentário para canal Arte 1 sobre seu trabalho.