Lucas Dupin | Rés do Chão

Manoel de Barros diz: “Aprendo (mais) com abelhas do que com aeroplanos. É um olhar para o ser menor, para o insignificante, que eu nasci tendo… Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão - antes que das coisas celestiais.1” A marca da sua poesia é justamente o interesse pelas miudezas, dejetos, lixos, sobras – tudo aquilo que, no mundo dominado pelo consumo de hoje, costumamos desprezar.

Em “Rés do Chão” Lucas Dupin mergulha profundamente neste universo do mínimo, das coisas ínfimas, do ordinário que nos passa despercebido e nos aproxima de elementos do nosso cotidiano: bitucas de cigarro, elásticos, pedras portuguesas ou asfalto se elevam ao nível de arte. É nesta desconstrução, na unicidade dada a cada objeto/coisa, que o artista encontra a profundidade em sua obra. Trata-se, como sugeriu Lacan, da “elevação de um objeto à dignidade de Coisa”2. O sublime artístico não pode apenas constituir numa subida, mas antes numa descida ao chão.

O chão agora está exposto, um movimento em 90 graus exibe o peso dos passos, desatentos, na parede da galeria. A surpresa surge da nossa própria assimilação do belo: algo que comumente poderia ser visto como repulsivo, transfigura-se em encanto, fascínio. As marcas no asfalto contam o tempo, explicam os gestos e escrevem histórias de quem ali pisou.

É no olhar para baixo que a obra acontece, no dia-a-dia, no mundano, sem disfarces da realidade, mas expondo o sútil e mostrando nele uma beleza e uma singularidade insuspeitas. Assim, Lucas Dupin nos propõe um desvio do olhar, nos convidando a ser nós mesmos a coisa ínfima propriamente dita.

1. Manoel de Barros. Retrato do artista como coisa.
2. Lacan. Le séminaire. Livre VII. L’éthique de la psychanalyse.


Curadoria | Paulo Kassab Jr.
Data: 16/06/2018 - 21/07/2018