José Guedes | Amarcord

Foram-se os sons, restaram as cores e as formas, das letras ficaram as referências, o tempo mudou de lugar.
Balões de diálogos pintados em têmpera falam sentimentos ou expressam a imaginação do espectador. É a própria forma da arte enquanto um conceito em aberto. O bom e o ruim como abstrações e a qualidade definida por críticos, instituições e pelo próprio público.
A obra de José Guedes se comunica pelo não dizer, no qual os acontecimentos persistem pela insinuação, porém nunca são explicitamente relatados.
Os espaços vazios da tinta declamam poesias que, escritas, falam a mesma linguagem do que foi oculto. Guedes esconde com tinta acrílica vermelha, frases do poema Fábula de um Arquiteto, de João Cabral de Melo Neto. A poesia inteira só pode ser lida quando se vê todos os quadros em comunhão, porém os espaços geométricos entre pinturas e letras, a construção da obra e seus encaixes, também evocam João Cabral.

“A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;

“Amarcord” não é por acaso: as obras têm um “q” de Fellini, com narrativa ousada, construída minuciosamente entre sonhos e fantasias regidos pelas cores. Há também a memória, o sentido do título – “eu me recordo”. O artista mostra trabalhos de diferentes períodos de sua carreira, expondo uma história quase autobiográfica.
Em toda sua obra Guedes nos propõe uma infinidade de possibilidades em um mundo onde tempo no relógio é outro, as formas de enxergar são distintas do lugar comum e as cores versam. Sincronicidade entre a tinta e o verso. Essa é a essência da exposição “Amarcord”, de José Guedes. Mesmo onde não há a palavra, pode haver poesia.