ID Expandida | Anaisa Franco

IDENTIDADE EXPANDIDA

A primeira revolução cultural surgiu há mais de dois mil anos com a escrita e se, para o filósofo Vilem Flusser, a segunda foi a invenção da fotografia, estamos cada vez mais certos de uma terceira revolução e completa mudança de paradigmas com a tecnologia digital e a internet. Atualmente, todo o nosso modo de nos comunicar e relacionar depende cada vez mais de uma organização descontínua da informação dos sistemas binários: sistemas científicos, bancos, engenharia, imagens, etc. O mundo é guiado pelo reino numérico dos 0s e 1s. Das imagens que postamos no Instagram até as mensagens que trocamos por celular, toda computação está baseada nesse sistema, que permite representar por circuitos eletrônicos digitais os números, caracteres, realizar operações lógicas e aritméticas. O aprendizado ignora as referências conceituais existentes para processar diretamente dados brutos e sensíveis e construir sua própria representação, no entanto, nosso modo subjetivo de ser e pensar, presença e consciência, pertencem ao mundo das sensações, não podemos racionalizá-los, apenas deixá-los flutuar em nossa percepção sensorial e mental.

Os humanos se movem livremente, formam conexões, interagem e reconhecem o mundo através de seus próprios corpos. As obras de arte e os objetos também podem criar conexões, gerar sentimentos e ter o mesmo conceito de tempo que o corpo humano, mas como seria se as coisas tivessem vida própria? Qual seria a percepção dos nossos próprios sentidos expandidos para uma máquina?

Com o rigor e a curiosidade de um cientista, Anaisa Franco investiga e questiona a possibilidade de inserir comportamentos, sentimentos e emoções em objetos e esculturas. “A eletricidade gera a vida, nos movemos porque somos elétricos. No mundo digital, eu estou interessada na eletricidade e no que ela faz com as peças, removendo a inércia do material criando vida” diz a artista.

Na exposição "ID Expandida”, a relação entre máquina e humano, orgânico e artificial, decorre da mediação via interface - que liga o físico ao digital na obra, provocando no usuário uma série de emoções, as quais ampliam os sentidos. É o ocorre em Expanded ID (2018), um banco de madeira que capta a impressão digital do visitante e a transforma em uma animação generativa. A obra pulsa em coloridos com formas únicas que mudam de acordo com as digitais de quem participa.

Se a expansão de identidade na obra de Anaisa Franco fala de questões tecnológicas, ela faz do tema ainda mais complexo quando explora a ciência e a forma como nos mesmos nos reconhecemos no mundo. Em “Homem Grávido”, a artista expõe a escultura de um homem de 1,80 m, grávido, no qual é projetado um documentário sobre transsexuais que passaram pela transição de gênero de mulher para homem, mantiveram o útero e engravidaram. A obra trata da interseção de gêneros direcionados a outros tipos de reprodução na era da reprodução biotecnológica onde já estamos acostumados à inseminação, doação de espermatozoides, bebês de tubo de ensaio e barrigas de aluguel. A todo tempo e de diferentes formas, ID Expandida provoca o público a se ver do avesso e a atravessar um misto de sensações e sentimentos.

Paulo Kassab Jr.



ID Expandida | Anaisa Franco

Clique na imagem abaixo para fazer o download do PDF.