Gene Johnson | Resíduos | Anexo Lume

ARQUITETURA DOS VESTÍGIOS

Qualquer obra, seja ela literária, musical ou plástica, é uma nova trama de citações ou vivências passadas. O conceito de “arte de convergência” de Octavio Paz (Convergências, 1991), caracteriza a poesia como lugar de intersecção de tempos, formas e espaços. Na medida em que capta as vozes que transitam na memória coletiva, em textos existentes, músicas, fotografias ou vivências do espaço, apropriando-se dessas vozes, para criar uma nova significação, a obra de arte é também campo para a intertextualidade. No espaço de uma obra confluem todos os tipos de relações, uma vez que ela é, antes de tudo, um universo animado e, de acordo com essa perspectiva, é capaz de catalizar as diversas manifestações sociais e culturais, trazendo para o seu interior influências de pensadores, escritores e filósofos, assim como as recordações de diversas impressões subjetivas. Desde um quadro de Picasso até os gráficos na bolacha de cerveja em uma mesa de bar. Tentando abarcar quase de forma caótica as sensações e memórias, boas ou ruins, que ficam guardadas em nós, Carlos Drummond de Andrade escreve em Resíduo:

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
(…)
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
(…)
…fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato

Na exposição “Resíduos”, de Gene Johnson, resta um pouco dos lugares onde ele viveu, um pouco de Nova Iorque, um pouco da Cidade do México, de São Paulo ou até de Ilhabela. Nas sobreposições de tintas, texturas e cores, ficam desejos, lamentos e caminhos urbanos, transformados em geometrias, colagens e estampas. Na mesma tela convivem de forma harmônica o fascínio de Gene pelas miudezas do chão, a curiosidade pelas formas das escadas ou a paixão pela arquitetura. Nesta amalgama de tintas, cidades, cores, memórias e sentimentos, Johnson criou uma linguagem própria, uma linguagem visual abstrata, fluente, flexível e emocional. Suas obras não perseguem rumos pré definidos, mas exaltam seu processo ou percurso, surgem das vibrações das pinceladas mescladas ao seu cotidiano, colocando-se, na prática, contra a supervalorização do futuro e em favor da valorização do instante em que cada agora é um início e um fim.

Paulo Kassab Jr.



Gene Johnson | Resíduos

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