Fabio Cardoso | Zéfiras

15 setembro - 10 outubro 2015

Curadoria de Paulo Kassab Jr.

O homem só existe em suas relações com o outro, é a partir daí que o mundo deixa de ser uma pluralidade indiferente de pontos para receber uma forma, libertando-se da fleuma e indiferença.

Até hoje o tema do sexo é tratado como segredo ou tabu. No Brasil, as máscaras carnavalescas dissimulam um país casto, arraigado em dogmas e tradições religiosas, a sociedade se mostra tão condenada ao surrealismo íntimo que, na maior parte do tempo, até as interações sexuais tem de ser arranjadas sobre o palco de um mundo interior.

As aquarelas de Fabio Cardoso lembram os jocosos e polêmicos “Catecismos”, de Alcides Aguiar. Na década de 60, sob o pseudônimo de Carlos Zéfiro, Alcides ilustrou e publicou, por mais de 30 anos, histórias em quadrinhos de cunho erótico . Era a ditadura, gestos e trejeitos surgiam espionados e qualquer representação do sexo era jugulada. O estado chegou a prender diferentes ilustradores, crendo que os desenhos eram deles. "Em todos as épocas e provavelmente em todas as culturas, a sexualidade foi integrada a um sistema de coerção, porém só na nossa, e recentemente, ela foi dividida de maneira tão rigorosa entre razão e sem-razão, saúde e doença, entre o normal e o anormal."*

Zéfiras é uma imersão nas questões do homem, na sexualidade, nas relações íntimas, nos movimentos do corpo em torno de si mesmo e do outro. São corpos e tentações revelados pelo contato da água sobre o pigmento preto. Os desenhos lembram testes de Rorschach e tal qual revelam no espectador aspectos reclusos de sua própria personalidade. Rostos enrubescem acompanhados de um sorriso sem graça.

Com todos os seus questionamentos e simbologias, Zefiras é algo além de uma ?exposição - é uma corrida contra o tempo, um pacto entre dor e prazer e a não repressão dos nossos mais legítimos anseios.

* Foucault



Catálogo Zéfiras - Fabio Cardoso

Clique na imagem abaixo para fazer o download do PDF.