Exposição Coletiva | Primavera nos Dentes

Primavera nos Dentes

Nem todo florescer acontece nas primaveras, mas a qualidade criativa natural a essa temporada forma o contexto mais propenso aos encontros inusitados que geram mutações. Primavera é o momento posterior ao inverno, quando os semelhantes se relacionam para tornar possível a reprodução de novas formas de vida. A intensidade, a duração e as formas com as quais as primaveras podem se manifestar variam consideravelmente: desertos, florestas ou cidades, às suas maneiras, vivenciam primaveras. As primaveras são muito importantes no Sul, mas também podem ser vivenciadas a partir da perspectiva do Norte, e seus ventos anunciam uma diferença de densidade entre as duas partes. Alguns exemplos de primavera são a Primavera de Praga, a Primavera Arabe e a Primavera das Mulheres.

A exposição Primavera nos Dentes é resultado de uma pesquisa sobre o engano. Investiga a potência política de perceber poder estar enganado e deseja estimular estados de suspeita, mirando o estabelecimento de uma relação equilibrada entre a dúvida e a fé como condição fundamental para uma existência saudável. Se vivemos o momento da história da humanidade de maior rapidez e intensidade de transformações – somos atingidos aos golpes por quantidades abismais de estímulos e informações – é preciso que desenvolvamos a habilidade de questionar nossas análises mais imediatas.

Enquanto os fundamentos originais do Ocidente se desfazem tragicamente sobre suas bases, surge um vácuo angustiante e perturbador que gera tanto preenchimentos ansiosos e nostálgicos de uma fundação – como os fundamentalismos, por exemplo – quanto teorias que apontam para o fim da lógica e da causalidade. Numa escala menor, esse vácuo é maquiado por relações de sentido superficiais, sem dobras, pouco complexas. Oxalá possamos conviver de forma criativa com a vertigem.

Absolutamente ligada a um sistema de produção de mercadorias, nossa cultura se estruturou de maneira violenta ao reverberar a crença de que um indivíduo é tão útil quanto suas capacidades de rapidez e eficácia. Tal noção produz corpos submissos e pouco criativos. A razão raciocina sobre os dados já existentes no mundo e o espírito imagina o que ainda não conhece: os dois se relacionam no momento da dúvida e da criação de respostas, numa resistência frente à própria existência de uma verdade inerente às coisas – quem dirá aos seres vivos. Decidir acreditar nas análises mais rápidas e ignorar a voz da razão em nome de auto-enganos convenientes, portanto, o mundo menos rico, a vida menos interessante e o espírito menos potente.

Os dentes que mostramos ao sorrir, também mordem. Às vezes, sorriem enquanto mordem.
Se mordem de raiva, mordem contra a fome, mordem na luta – às vezes enquanto sorriem.

Curadoria: Bernardo Mosqueira e Ulisses Carrilho
Data: 02/09/16 - 26/09/16