CURA l Luiz Hermano

CURA

Na cultura popular, corpo e espírito não se separam, tampouco desconecta-se o ser humano do cosmos ou a vida da religião. Para todos os males que atingem o corpo e a alma há sempre uma reza para curar. Apesar do tempo e dos avanc?os da medicina, a tradição dos curandeiros ainda persiste na sociedade.
Quebranto, mau-olhado, espinhela caída… quem quer que percorra as pequenas cidades do interior do Brasil, vai se deparar, em um momento ou outro, com alguns desses nomes que fazem parte de um mundo mágico-religioso, povoado de rezas, crenças, rituais e simpatias. Em outros países ou povos mudam os nomes e os simbolismos, mas persistem as crenças.

Nascido em Preaoca, município de Cascavél (CE), Luiz Hermano foi influenciado por estes cultos e conheceu, através de suas viagens, a história de diferentes civilizações, seus deuses, mitos e ritos. Nesta exposição o artista apropria-se destas narrativas e memórias, assimilando conhecimentos cada vez mais densos de mundo e reinventando-os às suas próprias regras. Paisagens, templos, notícias, mitologias, catedrais e pequenos objetos encontrados no caminho, tudo se condensa em novas obras. Em “Faraó”, Bolas de ping pong e aramados pintados dão forma a uma espécie de sarcófago. Se no antigo Egito acreditava-se que o morto necessitaria do seu corpo preservado para que seu ka (espírito) pudesse regressar e juntar-se a ele novamente quando fosse retornar a vida, na obra de Luiz as cestas de arames parecem conservar as miudezas ou o divino da infância, do lúdico e das memórias.

A conexão com a terra também irrompe em “Lavoura” e “Gaia”. A deusa, personificação do planeta terra e latente de uma potencialidade geradora imensa, parece em harmonia até a “Chegada da Lama” que engole a cidade convertendo-a em um campo de dejetos da mineração.

Em “Cura”, Luiz Hermano volta após mais de 30 anos a unir esculturas e telas em uma exposição. Além de insinuar sua própria reconciliação com o meio (pintura), muitas das obras falam de rituais de transformação e aprendizagem. Contadas entre tramas de arame, brinquedos, fios de cobre, utensílios de cozinha e uma enxurrada de objetos que adquire nos comércios e feiras mundo afora, cada narrativa faz parte do universo encantado do artista, que releva-se no espaço expositivo em pinturas, instalações ou esculturas.

Paulo Kassab Jr.



CURA l Luiz Hermano

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