Carlos Nader | Auto

Toda percepção surge de um mecanismo que se revela como um processo circular quando se pondera a respeito de suas inter-relações: o processo de interpretação de uma obra consiste tanto numa maneira de apreender o comum que se revela na expressão do ato criador individual, uma vez que cada individualidade traz em si algo dos demais; como num processo de adivinhação do peculiar de alguém em relação à comunidade. O 'método' do compreender terá presente tanto o comum - por comparação - como o peculiar - por adivinhação -, isto é, será tanto comparativo como divinatório. Em um e outro sentido continuará sendo no entanto 'arte', porque não pode mecanizar-se como aplicação de regras. O divinatório seguirá sendo imprescindível.

Deste modo, compreender reside num processo tanto re-criativo, no sentido que reproduz o ato de criação de um indivíduo, como num processo de estabelecimento de uma colaboração empática no instante poético da criação. Segundo Emerich Coreth, compreender é um ato de identificação entre o autor e o intérprete, no qual este, na sua reconstrução interpretativa, deve ser capaz de compreender o autor melhor do que ele mesmo.

De uma certa forma há na exposição “Auto” de Carlos Nader uma relação entre autor e intérprete, não no sentido único da criação artística, mas sim na convivência e no entendimento íntimo e profundo de um pai da maneira que seu filho, portador de autismo, enxerga o mundo. Carlos entende pelas experiências de Teo que a vida é essencialmente plástica, uma fruição constante de imagens, sons, cheiros, movimentos e ritmos e, re-cria o mundo a partir dos olhos dele.

Na prática, o encantamento do garoto pela chuva escorrendo por uma claraboia de vidro e refletindo uma imagem de vídeo serviram, por exemplo, como base da criação da instalação Meu Amor é Cachoeira (2017). A tela translúcida que siderava e protegia Teo das tempestades, metamorfoseia-se em um suporte de projeção para vídeo e água.

Já Espaço Tempo (2017), mimetiza a forma com que o adolescente assiste diariamente os mesmos filmes há 17 anos, em diferentes telas, procurando absorve-los quadro a quadro. Na obra exposta, uma das telas exibe 8 segundos do lançamento de um foguete em loop, enquanto a outra tela é dividida em 240 partes para mostrar cada quadro do vídeo simultaneamente.

Ao mesmo tempo em que trata da circularidade e do fascínio cinematográfico da vida, a exposição a revela a partir de um olhar singular, carregado de sensações inimagináveis, que alteram a consciência que o espectador tem do tempo, da velocidade, da paisagem e de si mesmo. “Auto” rompe com a dicotomia entre subjetivo e objetivo, interior e exterior, passado e presente, levando nos a uma consciência perdida entre natureza e cultura.

Curadoria Paulo Kassab Jr