Aonde Vamos?

“Comece o mundo enfim pela ignorância.
Pois tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.”
(Inconstância dos bens do mundo, Gregório de Matos)

Gregorio de Matos escreve estes versos no século XVII, retratando uma época preocupada com o caráter efêmero da existência, transtornada tanto pelas sucessões de conflitos políticos e religiosos, quanto pelas epidemias, sobretudo da peste negra. O poeta explora a idéia da existência da estabilidade apenas na constância da incerteza, o período de silêncio que precede a guerra ou o estrondo.

Quase 400 anos depois passamos por questionamentos similares, não tanto pelas doenças, mas pelo extremismo político e religioso que faz com regressemos a indagações sobre direitos adquiridos há mais de 30 anos como os avanços no reconhecimento dos direitos individuais e sociais das mulheres, direito dos indígenas ou a proteção ao meio ambiente. As eleições tornaram-se concursos de popularidade em vez de serem um debate racional de propostas e, enquanto isso, insuspeitos eleitores se deleitam com falsas notícias (fake news), posts revoltos e engajados “likes” e “deslikes”.

Enquanto nos adaptamos e reinventamos formas mais “sustentáveis” de conviver e compartilhar, o consumo e as redes sociais continuam a crescer como uma fonte de prazer quase orgástica, tudo se vende, tudo se compra, tudo se expõe, tudo se “posta”. Aliás, este modo de vida dedicado ao externo, à aparência, impõe até mesmo padrões de beleza massacrantes e, de certo modo, inatingíveis. Já que o mundo real não permite as correções dos aplicativos de celular , recorre-se a cirurgias plásticas, tratamentos e remédios “milagrosos”. E se a auto-imagem transformou-se em fonte de tamanha ansiedade, o que dizer da expectativa criada com relação aos possíveis parceiros? Isoladas do resto do planeta por preconceitos `comerciais`, as pessoas passam a avaliar seus interesses amorosos como se escolhessem uma roupa: a procura não é por virtudes, mas por comodidades.

Nem uma gaivota… Como disse Marisa Flórido César, “a única legenda que aparece na obra Bang nos alerta: estamos na suspensão do “ainda não” que antecede o estopim da arma, o clique da camera fotográfica, a deflagração do trágico acontecimento - a guerra. Um segundo tão asfixiante que parece se estender ad eternum”. Bang, Bang…

Vivemos um momento de reticência, a transição incerta entre dois governos temerários insinua uma sociedade entre a euforia e tristeza. Sem oferecer respostas, a exposição sugere questionamentos contrapondo artistas de diferentes gerações; o que rege nossas prioridades? Como enxergamos os períodos de transição no passado e no presente? Onde Vamos?

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| Artistas |

Adolfo Montejo Navas
Ana Vitória Mussi
Clara Ianni
Ilê Sartuzi
Kilian Glasner
Nazareth Pacheco
Ole Ukena
Tiago Tebet

Curadoria | Paulo Kassab Jr.