Anaisa Franco | Heart Dialogue



Os diálogos intersubjetivos em Anaísa Franco

Anaísa Franco permaneceu em trânsito por vários continentes como a Europa, a Ásia, e a Austrália após completar seu curso de mestrado em Londres, entre 2007 e 2015. Durante estes anos desenvolveu uma série de pesquisas que envolvem o corpo na arte -tanto o corpo como sujeito na obra, quanto o corpo do observador em contato com a obra-além de introduzir componentes da psicologia e das ciências cognitivas em sua produção.

Para contextualizar o seu trabalho, podemos inseri-lo na linhagem das pesquisas sobre a participação do espectador na arte e na performance, que remontam ao Surrealismo e se desdobram com força total nas vanguardas artísticas que sucedem o segundo pós-guerra, alcançando os dias de hoje.

A artista atua a partir de uma perspectiva intersubjetiva e transversal, o que configura uma das múltiplas vertentes da arte contemporânea. A obra é apresentada em diversas camadas. A primeira delas é o desenho, como grande configurador do espírito do seu fazer artístico. A partir do traço, do esboço ou de story boards, Anaísa conjuga as tradicionais artes plásticas com a pesquisa das interfaces e suportes digitais para construir um universo onírico.

Primeiro desenha e concebe, para em seguida alçar a fase de produção, que envolve diversas técnicas de eletrônica, modelagem digital, fotografia e vídeo. A pesquisa prática implica um constante processo de experimentação com novos materiais e fabricação digital, para chegar em uma situação afetiva afirma Anaísa, em que as pessoas podem expandir seus sentidos por meio da interação com objetos.

E prossegue..."nestas dinâmicas de interação, minha pesquisa baseia-se em níveis práticos e teóricos de estimulação e simulação perceptual. Como artista contemporânea eu não me apego a apenas um tipo de suporte".

Estas passagens e negociações -entre o desenho, a fotografia, as animações, o vídeo, as instalações interativas e entre esculturas ou objetos, que provocam constantemente o olhar e o corpo do espectador- é que a caracterizam como artista multimídia . São procedimentos que resultam em uma obra multifacetada, na qual o desenho protagoniza pequenos filmes, passagens que vão sendo construídas por meio da evocativa sensível e sensorial.

O nome desta exposição vem de uma de suas obras: “Heart Dialogue” -que interliga todas as outras expostas- é um objeto de luz sensível, que pulsa e expande os batimentos cardíacos do observador por meio da utilização de um sensor.

Após o download de um coração em 3D, captado da internet, que a artista modificou para ficar no formato atual,ela cortou a laser as fatias de MDF e montou a tecnologia da obra com um fio eletro luminescente, o “el wire”.

Quando se coloca o dedo sobre a obra, o coração pulsa conforme o batimento cardíaco do público e a luz acende. “Nosso coração bate 24 horas por dia e é o que nos mantem vivos. A peça é uma forma de materializar a indispensável pulsão da vida”, diz Anaísa.
Daí decorrem os três desenhos apresentados sobre tecido e os três pulmões, todos iluminados com corações que acendem.

Mais uma série de 20 desenhos sobre fotografias na neve é apresentada. A partir da coleta dos sonhos de vinte pessoas, a artista desenhou a neve sobre as fotos. Embora autônomos,estes desenhos são estudos; um planejamento para a animação, materializado em “Onírical flutuations”, uma videoinstalação que foi realizada via a coleta de entrevistas-mediação viva de acesso ao inconsciente e à expressão dos sonhos dos entrevistados feita pela artista-que prioriza a criação de espaços oníricos. Mais duas animações acompanham esta obra, ampliando os seus sentidos a partir da noção de conjunto.

A instalação interativa “Expanded Eye” amplia a visão do espectador a partir de um software de reconhecimento dos olhos e de uma câmera de infra-vermelho que identifica o olho do mesmo. O observador tem a sua visão expandida, porquê vê o seu olho multiplicado várias vezes.
Esta obra implicou em pesquisas e estudos acerca da visão, tendo a artista buscado a sua inspiração a partir do Compound Eye Insect- olhos compostos dos insetos -que enxergam num raio de 360 graus; insetos tem a visão mais elaborada e completa que nós, e podem enxergar por vários lados ao mesmo tempo.

“Floating Land” foi produzida em 2010 enquanto a artista estava em Taiwan, quando presenciou uma série de pequenos terremotos. É uma animação em quatro caixinhas interligadas, que traduz a experiência de se estar em terras flutuantes. A água, um dos elementos presentes nesta obra,traduz os sonhos da própria Anaísa, os quais se referem a modos de transporte como o trem e o avião, e a modos de ser e estar no mundo, à experiência da Terra propriamente dita.

A relação sensível entre maquínico e humano, orgânico e artificial, decorre da mediação via interface - que liga o físico ao digital na obra e isto provoca no usuário uma série de emoções, as quais ampliam sentidos e sextos-sentidos, nas palavras da artista.

Todas estas ações decorrem de uma visada de Anaísa, a qual pressupõe que o momento da fruição seja elevado. A ideia é criar sentimentos que o ser humano não consegue, a priori, vislumbrar com o corpo e aí, as interfaces são as criações que estabelecem o ponto de partida para os diálogos intersubjetivos.

Com este modus operandi, Anaísa recria o mundo atual: junta as partes dos corpos, convoca o corpo do observador e compartilha sensações, sentimentos e sonhos os quais, em última instância, celebram a vida e seus mistérios, por meio de um universo repleto de novos cinemas, que perpassam as artes visuais contemporâneas em pequenas narrativas. Em qual delas você se situa?

Curadoria: Daniela Bousso
18/02/16 - 25/03/16



Catálogo Anaísa Franco - Heart Dialogue

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