Esse sonho pode nunca acontecer

História, farsa, repetição

Sabe-se que na pintura renascentista, o ideal de uma grande obra de arte era que seus vestígios de feitura não ficassem evidentes, como se a imagem fosse simplesmente uma aparição que não tivesse passado pela mão do pintor, ou seja, partindo da ideia de que ali não havia sido utilizado nem pincel, nem tinta em sua execução. Em algumas pinturas, no entanto, as camadas de tinta foram ficando mais transparentes com o passar do tempo, deixando que algumas imagens subjacentes à tela se tornassem visíveis. Dessa forma, ao revelar as alterações de formas e composições destas representações pictóricas, as mudanças de ideia do pintor se faziam visíveis, fenômeno que em pintura é chamado de pentimento. Pentimento (pentimenti) é uma palavra de origem italiana que está ligada à ideia de arrependimento.

Nos trabalhos apresentados em sua exposição individual, Gabriella Garcia elabora um conjunto de pinturas e esculturas que lidam, a princípio, com a ideia da gestualidade e a própria fatura do objeto de arte. Não obstante, a artista recorre ao que há de mais acadêmico e clássico na arte - seja em materialidade ou suporte - para justificar uma história oficial que já foi dada. Mas engana-se quem acha que as escolhas estéticas de Gabriella corroboram para a reiteração de um pensamento hegemônico. Ao observarmos a teatralidade empregada em seus trabalhos, começamos a perceber que ali todo gesto pode estar sendo encenado, e que as camadas podem esconder nuances que os olhos não veem. Assim como no ideal renascentista, a artista cria objetos que guardam “arrependimentos” em si.

Se observarmos a história da dramaturgia, atentamos que, a exemplo de outras realidades do universo da humanidade, certas práticas e certas características aparentemente se repetem. Se prestarmos mais atenção, contudo, vamos descobrir que elas se repetem falsamente, ilustrando uma afirmação de Karl Marx de que a História acontece duas vezes, “a primeira enquanto tragédia, e a segunda enquanto farsa”. No latim, a palavra farsa implicava o sentido de recheio (farcire). A palavra foi utilizada sobretudo no teatro, desde a Grécia, e ganhou especial relevo na Idade Média, enquanto um gênero específico de espetáculo.

Se o sentido mimético do espetáculo tinha a ver com a imitação de uma determinada ação, a farsa pressupunha um recheio,ou seja, acréscimos, e tinha a ver com as máscaras que originalmente eram realizadas com esta denominação. “Recheava-se” o personagem ou a situação original, acrescentando-lhe detalhes e elementos. Com que fim? Com a finalidade da crítica, sendo assim, tal recheio ampliava em lupa a qualidade ou a característica do personagem ou da situação, com o fito de, aumentando-a, torná-la mais visível e, em consequência, mais evidente.

Ao trazer todas essas nuances de farsas e arrependimentos em seus trabalhos, a artista tensiona o poder narrativo que as imagens criaram no mundo e o quanto mais se torna extremamente urgente e necessário questioná-las, para que a história não se repita enquanto uma tragédia ainda maior. Se, no espetáculo a farsa servia como uma espécie de crítica e de mofa para os que ela assistiam, atuando, assim, com uma função social de moralidade; em sua exposição, Gabriella Garcia nos coloca como espectadores de uma história cheia de falhas e, por isso, de camadas que escondem suas reais intenções. Agora basta saber como agir diante delas. Enxergar que o mundo tal qual como conhecemos não passa de uma mera ilusão construída pode ser doloroso, mas essa ruptura também não nos serve como potência para reimaginar o futuro?

- CAROLLINA LAURIANO

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CISCO

Antes de sermos imagem fomos nome: nome responsável por assumir que somos progênie, um resto de pedra entalado na garganta ou o resultado do pó que escorre do acabamento dos forros, pulmões que há mil anos e dois minutos rasgam a terra - do Cáucaso a Araripina em Pernambuco, na reivindicação da possibilidade de dizer seu nome.

Antes de sermos imagem fomos nome e coisa amalgamada tornada palavra em mil línguas. Pulverizadas não só na matéria, mas no sentido daquilo que vaza de todas bocas com suas ideias e representações de espécie que não sabem conter nos lábios o seu próprio léxico, beijamos a testa do nome na busca de verter ao mundo imagem por meio de uma enunciação. Há aqui um lugar onde a imagem se permite falha, e é da sua insuficiência em relação a vontade da espécie que algo vaza.

Antes de sermos imagem fomos nome e também a única perspectiva de solidez das vontades imensas de representação da espécie - em um primeiro momento - e da ideia de coisa grega que percorre um teto e quebra e difunde a luz, emulando degraus, volumes, controle - em um segundo momento; partículas sem culpa, agentes de uma violência que não nos pertencia.

Antes de sermos imagem fomos nome já de saída malditos, relegados às paredes dos pulmões, ao resto de santos que se partiam no chão, à cor que tomava as ruas de todas as cidades de quatro em quatro anos e ao modo como as montanhas se esqueciam de chorar enquanto as fazíamos motivo de céu: e é sob aglomerados de mil de nós que os justos embalam seu sono pelas capitais.

Antes de sermos imagem fomos nome, minério, geografia e engasgo. Antes de sermos imagem fomos nome e violência a nós mesmos e a outros mil; fomos a falência de órgãos, as representações que se formam dentro das baratas e o reflexo de tudo e aqui estamos, manchadas de tempo, bastiões do zelo de uma espécie e antes de sermos imagem somos nome.

- GUILHERME TEIXEIRA

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Reclamar a inutilidade como uma ferramenta estratégica

Nos cálculos de Legacy Russell, curadora e escritora norte-americana autora de Glitch Feminism: A Manifesto (2020), o conceito de glitch, isto é, da “falha”, pode mediar uma poética feminista em virtualidades como metáfora, ferramenta e atitude revolucionária. De modo sincrônico e com início simultâneo ao começo do sistema-mundo o qual hoje somos alocades, muito se discute sobre, e é organizado sob, a formulação de valor — conceito este que, uma vez cristalizado, pertence à conceitos abstratos como realidade, ser, existência, dentre outros que não comportam uma definição propriamente dita. Por conseguinte, conseguimos apenas tentar iluminar o sentido de valor, não defini-lo.

Assim, valor não é qualidade absoluta. Valor é a qualidade relativa de uma matéria a ser valorizada, que sugere o estabelecimento de relações entre esta e o ser humano; consequentemente, entre esta e o sistema organizacional e cognitivo da sociedade. Gabriella Garcia então, ao se valer da premissa de que objetividade é sempre um mínimo de subjetividade, nos convida a deslocar o olhar para a decadência de qualquer sistema de classificação humano, construindo taxonomias não-binárias que influenciam o corpo das obras a serem observadas.

Portanto, os harmoniosos pigmentos, drapeados e empilhamentos ocultam uma barricada: ao invés de ordenar, acentuam o caráter caótico e inextricável da ânsia do que pode vir a ser valorizado como organização e deleite. Através do elo de gesso e mármore, estudos de equilíbrio de pedras e objetos e pintura, matérias profanas e outras com condigno brio representativo; bem como do mimetismo e do processo de tornar estático o movimento, Garcia objetiva demonstrar como a utilização negacionista de modelos taxonômicos como arquétipos, catálogos, listas e índices, simultaneamente à propriedades líquidas como astronomia, astrologia, sonhos e memória, podem se realizar de modo rítmico e, ainda assim, irônico.

Grande número de valores tradicionais, até a noção da realidade, tem, hoje, seu valor colocado em questão no mundo, e a educação para o senso de valor e desvalor adquire uma importância enrijecida. Deste modo, a artista se manifesta por meio de sua própria cosmogonia, ora porventura vulgar, um novo diagrama de valores. Apesar do campo relativista da arte a qual neste momento se insere, Gabriella Garcia anseia também tentar assentar alguns princípios básicos, que contribuem para a edificação de uma esfera imaginativa e intersensorial — cuja complexidade se relaciona com o fator determinante da experiência da maioria dos seres humanos: o sonho.

Sendo esta sua ferramenta de análise e assimilação, o efeito das flutuações em condições sociais e individuais, tais quais culturais básicas, não são esquecidas. Em vista da subjetividade do mundo de Gabriella ser onipresente no mundo de sua produção artística, a historiografia da arte hegemônica em geral, as quais carregam de uma tradição de arte milenar, possam ter valor, não possuem necessariamente valor da mesma forma para a artista: um busto de homem feito de gesso e, assumidamente comprado pronto sem pudor, por exemplo, é esmagado por uma pedra num exercício de empilhamento, equilíbrio e proposições tonais lineares.

Por fim, signos possuem valores, sempre e exclusivamente para seres humanos de uma determinada época ou de um determinado círculo cultural, e são enclausurados nestes valores porque sentidos de comunicação visual preenchem determinadas funções. Signos causam prazer, conforto, gozo ou até proveitos e ganhos, por satisfazer determinadas necessidades, pois de alguma maneira são úteis ao homem. No entanto, não há normas, nem fórmulas, nem regras que possam desprogramar a obsolescência de um corpo de arte no qual não se vive o poder de imaginação. À vista disso, no sonho instaurado por Gabriella Garcia, é reclamada a inutilidade como uma ferramenta estratégica.

De quê?

- ODE

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Sabes de mim o que?

O programa investigativo proposto por Aby Warburg, estudioso da arte renascentista, ao qual se dedicaram muitos outros pesquisadores, definia as imagens como símbolos formadores de uma memória coletiva que circulam através do tempo, reativando-se e modificando-se ao inserirem-se em momentos históricos específicos. O passado sobrevive no presente como temporalidade nunca efetivamente concluída. Um exemplo bastante difundido é a releitura de preceitos da Antiguidade Clássica na arte Renascentista, mais de mil anos mais tarde.

Em sua primeira exposição individual na Galeria Lume, o conjunto de telas e esculturas de Gabriella Garcia surgem em construções quase teatrais, regidas com maestria harmônica. As alusões são nítidas, poderíamos estar em um cenário inacabado de Da Vinci, Michelangelo ou Caravaggio, no qual esvaíram-se os corpos. Deles restou apenas o imaginário desenhado pela veste, esculturas e instalações que, no contexto da arte contemporânea, assumem formas arquitetônicas e superfícies orgânicas que evocam a ideia de uma sociedade com caráter distópico. Mas que lugar é este onde as vestes que correm o corpo da Pietá, ou às que cobrem o busto de Monalisa, são protagonistas sobre os corpos?

Uma possível interpretação surge na escultura em que a cópia do rosto de uma Deusa grega (Atenas?) é comprimida por pedras: “Nós não somos assim tão fortes”. A divindade da inteligência, da sabedoria e das artes está subjugada. Acaso?

Voltemos à Grécia Antiga. Em Ilíada e Odisséia, de Homero, fiar e tecer são tarefas puramente femininas. Não apenas Penélope se dedica incessantemente à tarefa, mas inúmeras personagens femininas são retratadas realizando esse tipo de ofício doméstico. Numa sociedade machista em que a mulher era continuamente silenciada, a tecelagem era uma das poucas formas que ela tinha de se comunicar. Não são poucos os mitos que abordam o poder de comunicação pictórico dos mantos e das vestes produzidos pelas mulheres. Um dos mais relevantes conta a história de Filomela que, após ser estuprada e ter a língua cortada pelo seu cunhado, Tereu, borda o ocorrido em um pedaço de tecido, com o qual presenteia a irmã, Procne, que entende a mensagem e se vinga do marido. A tela em drapeados cobertos de tinta cinza grita às histórias do passado “Qual o peso da sua consciência”?

Na exposição “Esse sonho pode nunca acontecer”, Gabriella Garcia expõe suas obras a diferentes interpretações, não à toa convidou quatro pessoas de vivências distintas para descreverem o que vêem. Assim, a partir de seu próprio trabalho, proclama: não existe uma única narrativa, uma verdade, a história da arte deve ser constantemente ressignificada. O filosofo Gaston Bachelard escreve que “Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo, toda paisagem é uma experiência onírica”. Assim, o espaço dos sonhos tem por fundo um véu, um véu que se ilumina por si mesmo em raros instantes. Aberta a múltiplas releituras, a exposição nos permite libertar o espírito crítico à luz da imaginação e despertar para uma leitura de mundo multiforme.

- PAULO KASSAB JR.



Esse sonho pode nunca acontecer l Gabriella Garcia

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