Serenata | Florian Raiss

Serenata

Nos mais de 40 anos de trabalho, Florian Raiss desenvolveu um estilo único, reconhecido em seus desenhos, pinturas e esculturas, sejam eles retratos imaginários, quadrúpedes, sereias, cabeças ou seres míticos das mais diversas formas. Embora afirmasse que grande parte de seu trabalho fosse fruto da fantasia e da imaginação, era a elaboração de suas experiências que pareciam motivar sua produção marcadamente lírica.

Dos delicados e pujantes desenhos que o artista cultivava em seu atelier, muitos tratam da relação íntima de seus personagens, seja na sutileza de um gesto de se oferecer uma flor ou na sensualidade profunda do toque. O homem cortês, o libidinoso ou ávido por carinhos, pode sugerir o espelho do artista envolto em desejos e fantasias que tornam-se, no desenho, seu único refúgio, ou talvez simples formas simbólicas que se repetem e as quais ele converte, com apuro e extremo apego aos seus contornos, em arte. “As formas tem poder”, dizia.

Os desenhos em nanquim, Ninfa #3 e Ninfa #4, mostram a potência das formas a qual Florian Raiss buscava. Concentrando o significado do corpo feminino apenas em sua linhas essenciais, Raiss exalta uma sensualidade menos óbvia, porém muito mais humana. Ao mesmo tempo que faz referência à paixão e ao apurado conhecimento musical do artista, “Serenata” lembra estes seres quiméricos que habitaram muitas das obras de Florian se agraciando com músicas, objetos, olhares ou carinhos.

No poema homônimo (Serenata) de Cecília Meirelles, ela escreve:

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.


Foi assim que despediu-se o artista em sua última escultura, “Respiro no Mar”: de olhos fechados, leve buscando um lugar maior que este mundo. A exposição “Serenata” evidencia a sensibilidade, a sofisticação e a multiplicidade de camadas de leituras e fruições que a obra de Florian provoca em cada um.

Curadoria | Paulo Kassab Jr.



Serenata

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